Kuroi chegou no preciso momento em que Theor, entediado, se preparava para deixar a taberna.
- Já de saída?
- Você é quem demorou demais.
- Sente-se enquanto vou buscar mais cerveja. Existe algo que só posso conversar com você.
Theor fez um ar meio indiferente. Mais por estar entediado do que por ignorar os assuntos do amigo. Kuroi saiu e voltou com duas cervejas.
- Eles estão dançando. Ótimo.
- O que foi?
- Theor... Você que o conhece há quase quinze anos... Lembra-se de alguma vez Müke ter viajado sozinho para o Leste? Muito além do Grande Rio Oren?
- Hum... Nós estudamos magia juntos na escola de Envirohant, e durante todo este tempo, sempre estive ao lado dele. Depois que nos formamos, contudo, cada um seguiu o seu caminho e nós nos encontrávamos ocasionalmente em Andun. Acho que já fiquei mais de dois anos sem ter notícias. Talvez ele tenha se aventurado por lá.
Theor prendeu seus longos cabelos castanhos com uma tira de couro e bebeu um generoso gole de cerveja.
- Qual o problema com ele? – perguntou em seguida.
- Fiz algumas descobertas. – Respondeu Kuroi. – Lembre-se do que aconteceu com ele na Floresta das Lielas. Ele está procurando algo.
- Não vejo problema com isso...
- Nem eu veria, mas... Müke pode estar se envolvendo com a magia das trevas...
- Você sabe que ele deseja se tornar um necromante, kuroi. Isso é puramente magia das trevas.
Kuroi passou a mão pela nuca. O amigo não estava entendendo o ponto.
- Theor... Acorde! Müke pode estar envolvido com o poder do mal!
- Müke? – Theor riu – tanto quanto eu e você, meu caro.
Theor bebeu o que restava da sua cerveja e se levantou para sair.
- Espere... Ainda não contei o mais importante.
- Há coisas importantes que nem eu mesmo contei... E jamais contarei. Conversaremos amanhã, Kuroi, se você não passar o dia na biblioteca.
Kuroi bateu com o punho na mesa. Tinha que provar que estava correto.
quarta-feira, 10 de junho de 2009
quinta-feira, 21 de maio de 2009
Santos que tomam coca-cola [trecho]
Marta sentava-se no ônibus segurava gentilmente a mochila de Gabriel, enquanto conversava com Leopolda sobre uma inflamação no ombro que doía havia meses, mas cujo tratamento ela não podia pagar. Naquele dia em particular, doía muito; ela cogitara a possibilidade de não ir para o trabalho, mas precisava do rendimento como diarista para pagar a inscrição da filha no vestibular.
- Milha filha vai ser médica. – dizia com orgulho à dona Leopolda.
- Eu sei que vai. Deus sabe o quanto a menina se esforça, Marta... Ele há de recompensar vocês duas.
Gabriel não ouvia a conversa das duas senhoras no ônibus. Tocava Rammstein no ipod e ele contemplava a manhã cinzenta que se espreguiçava pela janela do coletivo. Ele teria de correr na chuva, se não quisesse perder a prova final da faculdade, para a qual estava atrasadíssimo, mas seria preciso mais que uma reprovação para fazê-lo deixar de ser preguiçoso.
- Só mais dez minutinhos... sei! – Pensava ele nos quarenta minutos extras enrolado na cama naquela manhã.
Quando o ponto de Gabriel chegou, ele tocou o ombro de Marta e pediu a mochila. A chuva ainda estava forte, mas ele ainda teria de atravessar metade do campus para chegar à sala de aula e não perdeu tempo: correu o quanto pôde, xingando mentalmente a droga da chuva.
- Estranho, Leopolda. – comentou Marta quando levantou-se para descer do ônibus. – Meu ombro... A dor passou!
- Milha filha vai ser médica. – dizia com orgulho à dona Leopolda.
- Eu sei que vai. Deus sabe o quanto a menina se esforça, Marta... Ele há de recompensar vocês duas.
Gabriel não ouvia a conversa das duas senhoras no ônibus. Tocava Rammstein no ipod e ele contemplava a manhã cinzenta que se espreguiçava pela janela do coletivo. Ele teria de correr na chuva, se não quisesse perder a prova final da faculdade, para a qual estava atrasadíssimo, mas seria preciso mais que uma reprovação para fazê-lo deixar de ser preguiçoso.
- Só mais dez minutinhos... sei! – Pensava ele nos quarenta minutos extras enrolado na cama naquela manhã.
Quando o ponto de Gabriel chegou, ele tocou o ombro de Marta e pediu a mochila. A chuva ainda estava forte, mas ele ainda teria de atravessar metade do campus para chegar à sala de aula e não perdeu tempo: correu o quanto pôde, xingando mentalmente a droga da chuva.
- Estranho, Leopolda. – comentou Marta quando levantou-se para descer do ônibus. – Meu ombro... A dor passou!
sexta-feira, 1 de maio de 2009
Heartbreaker
Eu tenho 20 anos e meu carro vale mais do que tudo o que você tem na vida. Vezes quatro. Sou herdeiro da maior usina de cana-de-açúcar da região; nem imagino quanto dinheiro tenho. O mostrador digital do meu Citroën marca 160. Pra quê tanta pressa? estou apenas indo ao analista e estas rodovias estaduais não são o melhor lugar para se tentar levantar vôo...
Reduzi para 120. Quando era criança, me lembro de ter visto na TV que, a essa velocidade, só um milagre pode salvar a sua vida. O que eu preciso é de um milgre para salvar uma vida há muito tempo perdida. Tecnicamente, numa batida a uma velocidade razoável sem o cinto de segurança, a pressão da sua caixa toráxica contra o volante esmaga o seu coração e um dos ossos rompe a artéria Aorta - aí voltamos à questão do milagre. Mas eu estou num Citroën com um cinto de segurança e milhares de air bags à minha disposição. Mesmo assim, me ocorrem flashs de um carro e um corpo estraçalhados levando chuva na beira da rodovia.
O despertador tocou às 14 horas. Acho que acordar antes do meio-dia é um pecado - e eu tento levar uma vida santa. Que piada. Dorota, a empregada polonesa, havia aberto as cortinas, como de costume, mas o quarto ainda estava escuro. Dia chuvoso.
Sabe qual é a vantagem do Frontal em relação ao Rivotril? É que o primeiro não lhe deixa zumbificado quando passa o efeito desejado (dormir, no meu caso). Embora uma caixa de um custe sete vezes mais que a do outro. Como eu já disse: posso pagar. Se você também puder, fica a dica.
Havia outro comprimido em cima da escrivaninha. Este era para achar que a vida vale a pena. Dorota deixara para eu tomar às 14h, pois perdi a liberdade de guardar por conta própria as caixas de remédios depois da minha segunda tentativa de suicídio. Também puseram grades em todas as janelas, varandas e aberturas lá no quadragésimo sexto andar. Me tiram armas convencionais, mas põem em minha mão armas brancas - e eu gostaria de lembrar que estou num veículo a cento e vinte por hora. Isso me lembra o que um escritor disse uma vez: "não faça do seu carro uma arma - a vitima pode não ser você."
Vou entrando em zona urbana e diminuindo a velocidade. Não quero terminar como o bastardo que matou uma mulher com sua Frontier embriagada. O que eu queria mesmo era falar daquela garota... Se ela fosse tão precisa e rotineira como eu, provavelmente nos encontraríamos de novo no cruzamento da Abdias com a General San Martin. Onde tudo começou. Nos conhecemos há dois anos e meio. Hoje faz precisamente um ano que ela me deixou. Por isso, levo no banco de trás uma generosa fatia de torta e uma velinha: quero comemorar com o analista.
[continua]
Reduzi para 120. Quando era criança, me lembro de ter visto na TV que, a essa velocidade, só um milagre pode salvar a sua vida. O que eu preciso é de um milgre para salvar uma vida há muito tempo perdida. Tecnicamente, numa batida a uma velocidade razoável sem o cinto de segurança, a pressão da sua caixa toráxica contra o volante esmaga o seu coração e um dos ossos rompe a artéria Aorta - aí voltamos à questão do milagre. Mas eu estou num Citroën com um cinto de segurança e milhares de air bags à minha disposição. Mesmo assim, me ocorrem flashs de um carro e um corpo estraçalhados levando chuva na beira da rodovia.
O despertador tocou às 14 horas. Acho que acordar antes do meio-dia é um pecado - e eu tento levar uma vida santa. Que piada. Dorota, a empregada polonesa, havia aberto as cortinas, como de costume, mas o quarto ainda estava escuro. Dia chuvoso.
Sabe qual é a vantagem do Frontal em relação ao Rivotril? É que o primeiro não lhe deixa zumbificado quando passa o efeito desejado (dormir, no meu caso). Embora uma caixa de um custe sete vezes mais que a do outro. Como eu já disse: posso pagar. Se você também puder, fica a dica.
Havia outro comprimido em cima da escrivaninha. Este era para achar que a vida vale a pena. Dorota deixara para eu tomar às 14h, pois perdi a liberdade de guardar por conta própria as caixas de remédios depois da minha segunda tentativa de suicídio. Também puseram grades em todas as janelas, varandas e aberturas lá no quadragésimo sexto andar. Me tiram armas convencionais, mas põem em minha mão armas brancas - e eu gostaria de lembrar que estou num veículo a cento e vinte por hora. Isso me lembra o que um escritor disse uma vez: "não faça do seu carro uma arma - a vitima pode não ser você."
Vou entrando em zona urbana e diminuindo a velocidade. Não quero terminar como o bastardo que matou uma mulher com sua Frontier embriagada. O que eu queria mesmo era falar daquela garota... Se ela fosse tão precisa e rotineira como eu, provavelmente nos encontraríamos de novo no cruzamento da Abdias com a General San Martin. Onde tudo começou. Nos conhecemos há dois anos e meio. Hoje faz precisamente um ano que ela me deixou. Por isso, levo no banco de trás uma generosa fatia de torta e uma velinha: quero comemorar com o analista.
[continua]
terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
Sementes da miséria
Kuroi abriu os olhos. Sonhara com ruídos e gritaria, que lentamente foram se tornando mais concretos, até que se tornaram parte da realidade. A confusão vinha do lado de fora, onde acusavam uma criança indigente de roubo. Gritavam que já bastava, que não poderiam tolerar um ladrãozinho mais nem um dia.
- Ele deve morrer! – gritou uma senhora conservadora.
O arqueiro foi até a janela, no primeiro andar, e deu uma espiada na situação. Logo depois, voltou e vestiu sua jaqueta, então desceu para ver mais de perto o que acontecia.
Havia uma pequena multidão em torno do menino, cuja testa ainda sangrava devido a uma pedrada. Havia muitas pessoas com pedras na mão prontas para lançá-las. Kuroi abriu caminho para ficar um pouco mais próximo da criança que, por mais incrível que possa parecer, não chorava nem berrava. Apenas sentava-se com as pernas dobradas envoltas pelos braços, encarando a todos com ar de fúria. Em uma de suas mãos, havia uma pequena marionete de madeira roubada.
Todos gritavam e ameaçavam. Um pedaço de pau voou, mas não acertou ninguém. Apenas Kuroi, um padre humano e um sacerdote élfico observavam a cena sem se manifestar. De repente, não se sabe se por maldade ou sem intenção, uma pessoa foi empurrada e deixou a sua pedra cair perto do garoto – este, bravo, nem procurou se esquivar.
O ato foi um estopim. Foi seguido por uma verdadeira avalanche de pedras, pedaços de pau e todo tipo de objeto. Kuroi não perdeu tempo e em um segundo já estava abraçando o menino, protegendo-o e levando boa parte das agressões. O sacerdote elfo também reagiu ao ataque, criando ao redor do garoto uma esfera capaz de reter todos os objetos atirados. O terceiro bom samaritano foi o padre, disposto a ajudar com seus poderes de cura.
A guarda da cidade, que já andava espreitando a anarquia, foi acionada depois de poucos segundos para deter a confusão. Com seus cavalos, puderam facilmente dispersar a multidão e coibir os ataques. No fim restavam apenas a criança, Kuroi, os religiosos e uma dupla de guardas querendo levar o menino para a prisão.
- Só depois que cuidarmos da sua carne e do seu espírito. – Sentenciou o padre. Ninguém podia discutir com uma autoridade religiosa.
- Ele deve morrer! – gritou uma senhora conservadora.
O arqueiro foi até a janela, no primeiro andar, e deu uma espiada na situação. Logo depois, voltou e vestiu sua jaqueta, então desceu para ver mais de perto o que acontecia.
Havia uma pequena multidão em torno do menino, cuja testa ainda sangrava devido a uma pedrada. Havia muitas pessoas com pedras na mão prontas para lançá-las. Kuroi abriu caminho para ficar um pouco mais próximo da criança que, por mais incrível que possa parecer, não chorava nem berrava. Apenas sentava-se com as pernas dobradas envoltas pelos braços, encarando a todos com ar de fúria. Em uma de suas mãos, havia uma pequena marionete de madeira roubada.
Todos gritavam e ameaçavam. Um pedaço de pau voou, mas não acertou ninguém. Apenas Kuroi, um padre humano e um sacerdote élfico observavam a cena sem se manifestar. De repente, não se sabe se por maldade ou sem intenção, uma pessoa foi empurrada e deixou a sua pedra cair perto do garoto – este, bravo, nem procurou se esquivar.
O ato foi um estopim. Foi seguido por uma verdadeira avalanche de pedras, pedaços de pau e todo tipo de objeto. Kuroi não perdeu tempo e em um segundo já estava abraçando o menino, protegendo-o e levando boa parte das agressões. O sacerdote elfo também reagiu ao ataque, criando ao redor do garoto uma esfera capaz de reter todos os objetos atirados. O terceiro bom samaritano foi o padre, disposto a ajudar com seus poderes de cura.
A guarda da cidade, que já andava espreitando a anarquia, foi acionada depois de poucos segundos para deter a confusão. Com seus cavalos, puderam facilmente dispersar a multidão e coibir os ataques. No fim restavam apenas a criança, Kuroi, os religiosos e uma dupla de guardas querendo levar o menino para a prisão.
- Só depois que cuidarmos da sua carne e do seu espírito. – Sentenciou o padre. Ninguém podia discutir com uma autoridade religiosa.
quarta-feira, 17 de dezembro de 2008
Adão e Ivo
Como foi visto anteriormente, o Doidão Supremo estragou toda a graça da criação criando a segunda e a pior coisa a pisar na Terra. Homem e mulher, respectivamente. Todavia, a história não foi tão simples. Eva, a bela senhorita por quem Adão se apaixonou, nem sempre foi como a conhecemos. O que estou prestes a contar-lhe, amigo leitor, é a verdade sobre a primeira mulher da história.
Eis que Deus, o lombrado, criou o homem. E viu que era bom. Ou não. Naquela centésima carreira de pó, não dava para saber mais nada. Com o tempo, Deus percebeu que o homem não conseguia dar conta sozinho do trabalho de transformar as flores mágicas em pó, o que atrasava consideravelmente a produção. O Magnânimo pensou então em um modo de agilizar os negócios. A primeira idéia foi utilizar asnos (parentes mais próximos do homem) como forma de auxílio, mas estes se provaram ineficazes, pois a idéia do polegar opositor surgiu apenas quando o homem foi criado. Logo, a solução mais prática seria criar um ser idêntico ao homem para que ambos pudessem trabalhar na produção do mágico pozinho branco.
Assim, num momento de insano sadismo, Deus violentamente arrancou uma das costelas de Adão e com ela fez outro homem, a quem deu o nome de Ivo.
Adão e seu companheiro habilmente conseguiram tocar os negócios da família, transformando as flores mágicas num próspero negócio, que mais tarde se tornaria o primeiro grande problema da humanidade. Ivo, como era feito apenas de uma costela, infelizmente nasceu bem menos inteligente que Adão e por isso sempre ficou com a função de assistente. Mesmo assim, Deus viu que era bom.
Ivo costumava passear nu pelo Paraíso, pois naquela época ninguém tinha vergonha de nada, e logo cedo descobriu que havia algo errado em seu corpo. Achava terrivelmente incômodo correr com os outros animais sentindo algo balançar e pesar entre as pernas. Na verdade, todo aquele negócio de ter pêlos e falar grosso estava ficando absurdo demais. Os animais da floresta tinham a maior dificuldade em distinguir a voz de Ivo da de Adão. Era tudo a mesma coisa. O segundo homem sentia crescer dentro de si um sentimento mais fino, mais delicado, mais sensível, mais róseo... Gostaria de poder voar com as borboletas, de cheirar como as flores, de ser um pouco mais... digamos... feminino. E eis que um dia Ivo foi ter com o Senhor.
- Papi! – Disse Ivo, ao que o Senhor se manifestou em forma de uma árvore em chamas.
Ivo então manifestou os seus desejos ao Criador, que achou tudo aquilo muito estranho.
- Mas filho... – Disse Deus. Eu não te criei à minha imagem e semelhança? Não te criei para ser viril e dar continuidade à tua espécie?
O segundo homem pensou um minuto e respondeu:
- Mas como vou dar continuidade se não há mulheres para tal propósito? Peço que o senhor me transforme em uma mulher, Senhor. Assim, Adão e eu poderemos ser felizes e lhe dar a criação que o senhor tanto deseja.
O Ser Supremo pensou um momento e concluiu que aquela brincadeira de criar coisas um dia lhe causaria problemas, mas um pai dificilmente resiste à vontade do filho. Assim, Deus resolveu criar a primeira mulher.
- Mas com uma condição, filho meu. Como vou remover uma parte tua, terei que lhe dar algo para compensar. Como dirá Lavoisier um dia: Tudo se transforma. Criarei em ti um par de seios e terei que deixar tuas curvas mais jeitosas. Um pouco mais de bumbum, talvez. E acho que Adão gostaria que eu desse um jeito nestas coxas e... Voilá! Estás pronta, mulher. A partir de agora, teu nome de guerra será Eva.
- Não seria melhor Shakira ou Britney?
- Eva!
Ivo, agora Eva, baixou a cabeça em consentimento e em seguida jogou seus longos cabelos loiros sobre os ombros. “Sempre quis fazer isso”, pensou satisfeita.
E assim, estava criada a primeira mulher.
E desde então, não houve mais paz na terra.
Eis que Deus, o lombrado, criou o homem. E viu que era bom. Ou não. Naquela centésima carreira de pó, não dava para saber mais nada. Com o tempo, Deus percebeu que o homem não conseguia dar conta sozinho do trabalho de transformar as flores mágicas em pó, o que atrasava consideravelmente a produção. O Magnânimo pensou então em um modo de agilizar os negócios. A primeira idéia foi utilizar asnos (parentes mais próximos do homem) como forma de auxílio, mas estes se provaram ineficazes, pois a idéia do polegar opositor surgiu apenas quando o homem foi criado. Logo, a solução mais prática seria criar um ser idêntico ao homem para que ambos pudessem trabalhar na produção do mágico pozinho branco.
Assim, num momento de insano sadismo, Deus violentamente arrancou uma das costelas de Adão e com ela fez outro homem, a quem deu o nome de Ivo.
Adão e seu companheiro habilmente conseguiram tocar os negócios da família, transformando as flores mágicas num próspero negócio, que mais tarde se tornaria o primeiro grande problema da humanidade. Ivo, como era feito apenas de uma costela, infelizmente nasceu bem menos inteligente que Adão e por isso sempre ficou com a função de assistente. Mesmo assim, Deus viu que era bom.
Ivo costumava passear nu pelo Paraíso, pois naquela época ninguém tinha vergonha de nada, e logo cedo descobriu que havia algo errado em seu corpo. Achava terrivelmente incômodo correr com os outros animais sentindo algo balançar e pesar entre as pernas. Na verdade, todo aquele negócio de ter pêlos e falar grosso estava ficando absurdo demais. Os animais da floresta tinham a maior dificuldade em distinguir a voz de Ivo da de Adão. Era tudo a mesma coisa. O segundo homem sentia crescer dentro de si um sentimento mais fino, mais delicado, mais sensível, mais róseo... Gostaria de poder voar com as borboletas, de cheirar como as flores, de ser um pouco mais... digamos... feminino. E eis que um dia Ivo foi ter com o Senhor.
- Papi! – Disse Ivo, ao que o Senhor se manifestou em forma de uma árvore em chamas.
Ivo então manifestou os seus desejos ao Criador, que achou tudo aquilo muito estranho.
- Mas filho... – Disse Deus. Eu não te criei à minha imagem e semelhança? Não te criei para ser viril e dar continuidade à tua espécie?
O segundo homem pensou um minuto e respondeu:
- Mas como vou dar continuidade se não há mulheres para tal propósito? Peço que o senhor me transforme em uma mulher, Senhor. Assim, Adão e eu poderemos ser felizes e lhe dar a criação que o senhor tanto deseja.
O Ser Supremo pensou um momento e concluiu que aquela brincadeira de criar coisas um dia lhe causaria problemas, mas um pai dificilmente resiste à vontade do filho. Assim, Deus resolveu criar a primeira mulher.
- Mas com uma condição, filho meu. Como vou remover uma parte tua, terei que lhe dar algo para compensar. Como dirá Lavoisier um dia: Tudo se transforma. Criarei em ti um par de seios e terei que deixar tuas curvas mais jeitosas. Um pouco mais de bumbum, talvez. E acho que Adão gostaria que eu desse um jeito nestas coxas e... Voilá! Estás pronta, mulher. A partir de agora, teu nome de guerra será Eva.
- Não seria melhor Shakira ou Britney?
- Eva!
Ivo, agora Eva, baixou a cabeça em consentimento e em seguida jogou seus longos cabelos loiros sobre os ombros. “Sempre quis fazer isso”, pensou satisfeita.
E assim, estava criada a primeira mulher.
E desde então, não houve mais paz na terra.
sábado, 6 de dezembro de 2008
Criação
A coisa toda foi mais ou menos assim:
Deus criou o mundo e achou bom. Passou os cinco dias seguintes ocupado em encher a Terra de bugigangas - e achou bom.
Lá pelo sexto dia, ele descobriu que tinha colocado no pack também uma coleção de plantas exóticas. Como ele acha tudo bom mesmo, ficou feliz da vida chamou-as de papoulas. Aí Ele, com sua infinita inteligência, em poucos minutos descobriu que as tais papoulas davam uma substância estranha, que poderia ser convertida num adorável pózinho branco. E ele viu que era bom.
Depois de tentar de tudo pra ver se o tal pó servia para algo, Deus acidentalmente acabou cheirando tudo o que tinha feito. Foi a primeira lombra. E Ele viu que era bom pra caralho, brother.
Foi aí que se deu a desgraça. Muito louco, o Criador decidiu que precisava de alguém pra compartilhar aquela experiência, digamos, divina. Daí, em sua santa lombra, ele juntou um punhado de terra com bracinhos e perninhas, deu uma soprada e PIMBA! Não preciso dizer mais nada.
No sétimo dia, veio a ressaca. E Ele viu que não era bom. Por isso dizem que ele não fez mais nada... Também pudera. Depois do homem e da mulher - a merda suprema - era melhor parar mesmo. Inclusive porque ninguém consegue trabalhar de ressaca.
E tudo por causa das papoulas...
Deus criou o mundo e achou bom. Passou os cinco dias seguintes ocupado em encher a Terra de bugigangas - e achou bom.
Lá pelo sexto dia, ele descobriu que tinha colocado no pack também uma coleção de plantas exóticas. Como ele acha tudo bom mesmo, ficou feliz da vida chamou-as de papoulas. Aí Ele, com sua infinita inteligência, em poucos minutos descobriu que as tais papoulas davam uma substância estranha, que poderia ser convertida num adorável pózinho branco. E ele viu que era bom.
Depois de tentar de tudo pra ver se o tal pó servia para algo, Deus acidentalmente acabou cheirando tudo o que tinha feito. Foi a primeira lombra. E Ele viu que era bom pra caralho, brother.
Foi aí que se deu a desgraça. Muito louco, o Criador decidiu que precisava de alguém pra compartilhar aquela experiência, digamos, divina. Daí, em sua santa lombra, ele juntou um punhado de terra com bracinhos e perninhas, deu uma soprada e PIMBA! Não preciso dizer mais nada.
No sétimo dia, veio a ressaca. E Ele viu que não era bom. Por isso dizem que ele não fez mais nada... Também pudera. Depois do homem e da mulher - a merda suprema - era melhor parar mesmo. Inclusive porque ninguém consegue trabalhar de ressaca.
E tudo por causa das papoulas...
quarta-feira, 26 de novembro de 2008
O corredor solitário.
Nada dura para sempre. Nada é eterno. Nem a própria eternidade, porque não existe eternidade. Nem eu, nem você, nem os bravos, nem os heróis, nem os deuses, nem os titãs. Nada escapará do cruel e paciente deus Tempo.
Você pode achar que tem muito tempo. Tem uma vida inteira pela frente, certo? Eu também tenho. Mas o que é uma vida para as biceculares sequóias dos vales Litentes? E o que são séculos para os deuses, criados há tantas eras? E o que são eras para a Terra, a mãe Natureza, aquela que está aqui desde todo o sempre?
Um dia, todo o universo conhecido ruirá com tudo o que nele habita. E não há dor, não há guerra, não há deus que seja eterno, exceto aquele do qual todos viemos e para quem tudo retornará com o fim.
Pois tudo, amigo, tudo o que começa... Acaba.
Você pode achar que tem muito tempo. Tem uma vida inteira pela frente, certo? Eu também tenho. Mas o que é uma vida para as biceculares sequóias dos vales Litentes? E o que são séculos para os deuses, criados há tantas eras? E o que são eras para a Terra, a mãe Natureza, aquela que está aqui desde todo o sempre?
Um dia, todo o universo conhecido ruirá com tudo o que nele habita. E não há dor, não há guerra, não há deus que seja eterno, exceto aquele do qual todos viemos e para quem tudo retornará com o fim.
Pois tudo, amigo, tudo o que começa... Acaba.
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